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Como fazer um esboço mecânico para o texto bíblico?

(veja esse post em PDF)

 

Existem alguns tipos de estrutura que podem ser desenvolvidas a partir de um texto, algumas simples e outras mais complexas.[1] Algumas estruturas levam em consideração as palavras, outras as cláusulas e outras, ainda, as ideias do texto. O objetivo de fazer uma estrutura (esboço ou diagrama) de um texto é facilitar a visualização do fluxo de ideias ali presente. Todo texto fala alguma coisa (assunto, sujeito, tema) e normalmente fala várias coisas a respeito daquela coisa (complemento, teses, afirmações, proposições). O objetivo de uma estrutura é apresentar essa coisa toda de maneira mais fácil de visualizar.

Note o que diz Chapell (2002, p. 115) sobre a utilidade dos esboços: “O pensamento do escritor bíblico tipicamente brilha com mais clareza no momento em que o expositor esboça a passagem. Os esboços visualmente exegéticos fazem o pensamento fluir do texto e habilitam o pregador a perceber os principais aspectos do seu desenvolvimento.”

Textos são compostos de parágrafos. Estes, são compostos de frases. As frases são compostas de orações. Assim, a unidade mais básica de veiculação de ideias (proposições) em um escrito é a oração, a qual também podemos chamar de cláusula. A principal classificação de uma oração é principal (independente) ou subordinada (dependente).

O modelo mais simples de esboço é chamado de mecânico (ROBINSON, 2003, p. 72). Esse esboço, muito prático e útil para a pregação, não se preocupa com a classificação exata das cláusulas, nem mesmo em separar todas as cláusulas. Preocupa-se mais com as ideias do texto e como elas se relacionam umas com as outras. O relacionamento entre as ideias é demonstrado organizando-as indentadas abaixo umas das outras e, se possível, ligadas por meio de linhas.

Um esquema mecânico tipicamente identifica cláusulas independentes (ou ideias principais) e depois coloca cláusulas dependentes (ou ideias em processo de desenvolvimento) em posições subordinadas às cláusulas principais. Não existem convenções estritas para determinar como construir um esquema mecânico. A ideia é colocar frases e conceitos de tal maneira que se possa perceber como elas se correspondem. As ideias principais são normalmente listadas à esquerda com frases e conjunções subordinadas, pretendendo-se com isso indicar suas relações com as cláusulas principais; entretanto, muitas variações poderão ser úteis. (CHAPELL, 2002, p. 116)

Robinson também expõe a utilidade do layout mecânico (esboço mecânico ou diagramação): “As ideias podem ser desvendadas através do uso de um layout mecânico. Tal diagramação determina o relacionamento das cláusulas dependentes às cláusulas independentes” (2003, p. 72). Para Robinson, esse é o terceiro passo na preparação de um sermão, passo no qual o estudante vai manipular o texto a fim de encontrar o que ele chama de sujeito e complemento. Este sujeito diz respeito não ao sujeito de uma oração específica, mas é o sujeito de todo o parágrafo, ou seja, aquilo sobre o que o texto está falando (2003, p. 65). O complemento, por sua vez, diz respeito às afirmações que o texto faz sobre o sujeito (2003, p. 65). Todo esse processo, para Robinson, é fundamental para encontrar a ideia exegética do texto.

Vejamos um exemplo simples de um esboço mecânico de Lucas 23.39-43:

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     Note nesta simples estrutura apresentada acima que as ideias principais do ponto de vista literário estão no nível 1 (L1, L4, L9 e L11). Como o texto é a transcrição de um diálogo, as linhas que estão no nível 1 são aquelas que introduzem os discursos diretos. As linhas que estão no nível 2, reportam aquilo que os personagens da narrativa disseram. A linha que está no nível 3 (L7), apresenta uma explicação ou desenvolvimento da ideia apresentada na linha de nível 2 (L6). As linhas de nível 1 poderiam apresentar também comentários do narrador que, aliás, são muitíssimo importantes em uma narrativa.

Vejamos mais um exemplo de esboço mecânico. A passagem desta vez é Mateus 8.28-34:

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     Nesta outra estrutura, temos um texto um pouco mais complicado. É também um texto narrativo, mas com mais níveis de sujeição. Temos 3 parágrafos que se confirmam pelo acréscimo de ideias novas: mudança de foco para a manada de porcos na linha 10 e fuga dos porqueiros (mudança de cenário, personagens novos) na linha 22. Note que, neste caso, o nível 1 contem as principais expressões que indicam mudança de cena na narrativa. Os demais níveis vão acrescentando informações à narrativa: detalhes, diálogos e principalmente sucessão de eventos. Em narrativa deve-se notar que a sucessão de eventos ocorre com verbos no modo Indicativo. As palavras em negrito, servem apenas para chamar a atenção para expressões exegética e teologicamente importantes para a interpretação do texto.

O esboço mecânico também pode ser desenvolvido a partir de textos mais dissertativos, como é o caso das cartas do Novo Testamento. Vejamos o exemplo de Romanos 1.18-32:

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     Note que esta estrutura de um texto tipicamente paulino, dissertativo, é bastante mais complicada do que os que vimos anteriormente. Aqui existem muitos mais níveis de submissão. Todo o nosso texto compreende apenas um assunto. As linhas 1 e 2 apresentam a proposição principal do texto: a ira de Deus está sobre os homens que detém a verdade pela injustiça. As linhas 3 e 5 apresentam razões para as afirmações acima: Deus tem se dado a conhecer aos homens de várias formas, mas eles, apesar de receberem tal conhecimento, não reconhecem Deus como Deus, pelo contrário, adoram criaturas (L3 a L23). Por tudo isso tais homens são indesculpáveis (L12). Como resultado, Deus entregou tais homens à imundícia (L24), a paixões infames (L30) e a uma disposição mental reprovável (L40). As demais linhas do texto desenvolvem as ideias aqui contidas, acrescentando detalhes a estas proposições.

Mais um comentário sobre a metodologia da estrutura acima: as linhas não contêm apenas cláusulas, mas ideias. Assim, quando a ideia é importante, dedicamos-lhe uma linha. Como resultado, há linhas com mais de uma cláusula (L11 e L67) e linhas para palavras ou expressões que não formam nem mesmo uma cláusula (L42 a L65). Assim, a estrutura que estamos propondo aqui não é precisa no que concerne ao conceito gramatical de cláusulas. O que se pretende é separar as ideias importantes em ordem de sujeição. O importante é que você consiga separar as ideias principais do texto em linhas distintas e consiga organizá-las em ordem hierárquica.

Como, então fazer um esboço mecânico? Eis um passo a passo:

1 – escolha um texto que você considere ter uma ideia completa.

2 – copie e cole o texto, em sua versão favorita, tradução literal ou no grego.

3 – leia o texto diversas vezes.

4 – quebre o texto em ideias principais. Tente manter essas partes pequenas, e cada uma delas contendo uma ideia importante para a mensagem do texto.

5 – organize as linhas por meio de “tabs”, de forma que a subordinação das linhas fique evidente. Se tiver paciência, desenhe linhas que evidenciem a sujeição.

6 – quando uma parte do texto não se relacionar diretamente a outra, pule uma linha e comece uma nova estrutura de sujeição.

7 – tendo terminado esse trabalho, revise se cada linha está subordinada à linha correta e se há outras possibilidades de relacionamento entre as linhas.

8 – com base na diagramação do texto feita por você, faça uma frase que expresse, de maneira completa e resumida, a ideia exegética do texto analisado, ou seja, o que (pode ser mais de uma coisa) o texto está afirmando sobre o assunto que o autor está falando.

 

LEIA MAIS

CHAPELL, Bryan. Pregação Cristocêntrica. São Paulo: Cultura Cristã, 2002.

ROBINSON, Haddon W. Pregação Bíblica: O desenvolvimento e a entrega de sermões expositivos. São Paulo: Shedd, 2001.

RUNGE, Steve. Haddon Robinson and Discourse Grammar: Part 1. 2008. Disponível em: <http://blog.logos.com/2008/10/haddon_robinson_and_discourse_grammar_part_1/> Acesso em: 15/12/2012.

RUNGE, Steve. Haddon Robinson and Discourse Grammar: Part 2. 2009. Disponível em: <http://blog.logos.com/2009/01/haddon_robinson_and_discourse_grammar_part_2/>. Acesso em: 15/12/2012.

www.opentext.org – website com estruturas de textos prontos.

www.biblearc.com – website com boa ferramenta para estruturação de textos.


[1] Brian Chapell fala sobre três tipos de esboço: gramatical, mecânico e conceitual. O primeiro, segundo Chapell, é mais útil para passagens pequenas, o segundo, para passagens maiores e o terceiro para a análise grandes porções da escritura como diversos capítulos (2002, p. 115-118).

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Mestre em Antigo Testamento pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper (CPAJ, 2007), mestre em Novo Testamento pelo Calvin Theological Seminary (2009) e doutor em ministério pelo CPAJ (2015), doutorando em Novo Testamento pela Trinity International University. É professor de Novo Testamento no CPAJ e ministro da Igreja Presbiteriana do Brasil. É também editor dos websites http://www.issoegrego.com.br e http://yvaga.wordpress.com.

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