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1 João 5.7-8: Uma Introdução a Crítica Textual

O profeta que tem sonho conte-o como apenas sonho; mas aquele em quem está a minha palavra fale a minha palavra com verdade. Que tem a palha com o trigo? —diz o Senhor. Não é a minha palavra fogo, diz o Senhor, e martelo que esmiúça a penha? (Jeremias 23.28-29)

 

Crítica textual é o nome que se dá à ciência que estuda manuscritos de textos antigos visando estabelecer critérios científicos para autenticidade e, por meio destes, o texto original de um determinado escrito. A crítica textual, ou baixa crítica, é aplicada a textos antigos das mais diversas culturas e nas mais diversas línguas. Evidentemente, para que a crítica textual de um texto seja feita, é necessário que haja mais de uma cópia do texto, mesmo que em línguas diferentes. Obras de Shakespeare, obras gregas antigas (Odisséia e Ilíada, por exemplo) e o código de Hamurabi são algumas das muitas obras submetidas à crítica textual. É evidente, no entanto, pela sua importância fundamental e abundância de manuscritos, que a crítica textual dos textos do Antigo e do Novo Testamento é o ramo mais ativo e produtivo dessa ciência. Evidentemente, a crítica textual se faz necessária quando os originais de um escrito antigo não estão mais disponíveis.-O objetivo do presente texto é usar 1 João 5.7-8 para mostrar um pouco do processo de criticismo textual. Esse texto aparece da seguinte forma nas seguintes versões e edições da Bíblia:[1]

 

ARA 7 Pois há três que dão testemunho [no céu: o Pai, a Palavra e o Espírito Santo; e estes três são um. 8 E três são os que testificam na terra]: o Espírito, a água e o sangue, e os três são unânimes num só propósito.
NVI Há três que dão testemunho: o Espírito, a água e o sangue; e os três são unânimes.
NA28 ὅτι τρεῖς εἰσιν οἱ μαρτυροῦντες, τὸ πνεῦμα καὶ τὸ ὕδωρ καὶ τὸ αἷμα, καὶ οἱ τρεῖς εἰς τὸ ἕν εἰσιν.
SBLGNT 7 ὅτι τρεῖς εἰσιν οἱ μαρτυροῦντες, 8 τὸ πνεῦμα καὶ τὸ ὕδωρ καὶ τὸ αἷμα, καὶ οἱ τρεῖς εἰς τὸ ἕν εἰσιν.
TR 7 οτι τρεις εισιν οι μαρτυρουντες εν τω ουρανω ο πατηρ ο λογος και το αγιον πνευμα και ουτοι οι τρεις εν εισιν 8 και τρεις εισιν οι μαρτυρουντες εν τη γη το πνευμα και το υδωρ και το αιμα και οι τρεις εις το εν εισιν

 

Note que a parte que aparece em colchetes na ARA (em vermelho), não aparece na NVI, nem nas edições gregas Nestle-Aland e SBL, mas aparece no Textus Receptus. Esse Textus Receptus (significado: texto recebido) é o texto grego produzido no século 16, com manuscritos disponíveis a Erasmo de Roterdã, os mais antigos datando do século 12 e quase todos pertencentes a uma mesma categoria de manuscritos, chamada hoje de texto bizantino. Há mais de 5 mil manuscritos diferentes dessa família atualmente. É possível dizer que o texto produzido por Erasmo usou uma versão primitiva da crítica textual, simplificada pelo fato de existirem poucas cópias disponíveis a ele.

Com a abundância de manuscritos vem uma abundância de, em geral, pequenas diferenças entre eles. Essas diferenças acontecem por diversos motivos. Os mais óbvios são os erros por parte do escriba.[2] Estes incluem erros gramaticais, mudança de palavras, mudança na ordem das palavras, omissão de palavra(s) ou linha(s). Há também mudanças intencionais. Alguns escribas se sentiam com liberdade para alterar, incluir ou excluir palavras e conceitos no texto visando melhorar compreensão, seja do ponto de vista linguístico, seja do ponto de vista teológico. Alguns incluíam notas marginais explicativas, que eventualmente acabaram entrando no texto em cópias posteriores daquele manuscrito. A grande maioria das diferenças que existem entre as cópias dos textos do Novo Testamento dizem respeito a erros gramaticais, uso de termos sinônimos e mudança na ordem das palavras. O trabalho de cópia de manuscritos era levado tão a sério que terminada a cópia e conferida, por vezes o manuscrito anterior, já deteriorado por ser de material orgânico, era descartado. Os manuscritos mais antigos do Novo Testamento datam do segundo século. Há em torno de 5.800 manuscritos do Novo Testamento, parciais ou completos, 10 mil manuscritos do NT em latim e 9.300 manuscritos em outras línguas antigas como o Cóptico e o Siríaco, entre outras.

Voltemos a 1 João 5.7-8. Existem em torno de 600 manuscritos gregos das cartas joaninas, sendo o P9 o mais antigo, datado do 3º século.[3] Destes, apenas 8 manuscritos apresentam a leitura do Textos Receptus que encontramos na ARA! Metzger apresenta a lista:

Os oito manuscritos são os seguintes: 61: codex Montfortianus, datando do começo do século dezesseis. 88: leitura variante por uma mão do século dezesseis, adicionada ao códex do século quatorze Regius de Naples. 221: leitrura variante acrescentada ao manuscrito do século 10 que se encontra na Bodleian Library em Oxford. 429: leitura variante de um manuscrito do século dezesseis que se encontra em Wolfenbüttel. 636: leitura variante adicionada a um manuscrito do século dezesseis em Nápoles. 918: manuscrito do século dezesseis em Escorial, Espanha. 2318: um manuscrito do século dezoito, influenciado pela Vulgata Clementina, em Bucareste, Romênia.[4]

 

A leitura maior (do TR e da ARA) está presente em algumas versões latinas posteriores e ausente nas versões latinas mais antigas, nos manuscritos antigos em outras línguas, bem como na maioria dos pais da igreja. A evidência textual aponta que o texto apareceu primeiro em Latim e depois foi acrescentado nos textos gregos. Em suma, a história textual aponta fortemente para o fato de que o texto aumentado (destacado em vermelho) não é original e não deveria aparecer em nenhuma Bíblia, nem mesmo entre colchetes. Além disso, não há nenhuma razão para supor que esse texto seja original e tenha sido excluído por copistas em centenas de manuscritos.

Esse é o objetivo da crítica textual bíblica, estabelecer o texto mais próximo possível do texto original escrito pelos autores sacros. Assim como no exemplo desse texto, como existe uma abundância escandalosa no número de manuscritos disponíveis, o texto original se repete centenas de vezes e exatamente por isso, há poucas instâncias em que existe uma dúvida com relação ao provável texto original e essas diferenças não são importantes no que concerne aos eventos relacionados a Jesus ou a alguma doutrina fundamental do cristianismo. Então, porque gastar tempo com crítica textual?

Há estudiosos que fazem isso por amor à ciência, alguns poucos que estudam essa área visando desacreditar o cristianismo e uma gama de estudiosos que amam a Palavra, acreditam em sua inspiração divina e perfeição e, exatamente por isso lutam para distinguir qual é melhor texto, mesmo em seus mínimos detalhes. O objetivo é chegar o mais próximo possível dos autógrafos originais. O objetivo é separar do trigo puro da Palavra da palha que as mudanças dos copistas, ainda que pequenas, acrescentaram.

 

 

_________________________________________________

[1] ARA: Almeida Revista e Atualizada. NVI: Nova Versão Internacional. NA28: Nestle-Aland 28ª edição. SGLGNT: Novo Testamento Grego da Sociedade de Literatura Bíblia. TR: Textus Receptus.

[2] Escribas: pessoas que faziam copias manuscritas de textos, especialmente antes do advento da imprensa no século XVI.

[3] Yarbrough, Robert W. 1-3 John: Baker Exegetical Commentary on the New Testament. Grand Rapids, Mich: Baker Academic, 2013

[4] Bruce Manning Metzger, United Bible Societies, A Textual Commentary on the Greek New Testament, Second Edition a Companion Volume to the United Bible Societies’ Greek New Testament (4th Rev. Ed.) (London; New York: United Bible Societies, 1994), 647–648.

Crítica Textual

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Mestre em Antigo Testamento pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper (CPAJ, 2007), mestre em Novo Testamento pelo Calvin Theological Seminary (2009) e doutor em ministério pelo CPAJ (2015), doutorando em Novo Testamento pela Trinity International University. É professor de Novo Testamento no CPAJ e ministro da Igreja Presbiteriana do Brasil. É também editor dos websites http://www.issoegrego.com.br e http://yvaga.wordpress.com.

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