Exegese Visual

Vivemos em uma época visual. Há telas por todos os lados e gostamos de ver e interagir com elas. Algumas pessoas têm maior facilidade de aprender vendo, em vez de ouvindo ou lendo. Existe alguma forma de usarmos recursos visuais para nos ajudar na interpretação de um texto bíblico (exegese)?

Eu estou escrevendo atualmente um trabalho sobre Apocalipse 17. Além de usar os comentários bíblicos, análise morfológica e sintática e buscas do Logos, resolvi usar também alguns recursos visuais. Veja um pouco do resultado.

Primeiro, usei o recurso nuvem de palavras para encontrar quais palavras gregas mais apareciam no texto. O resultado foi o seguinte:

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As palavras que mais aparecem no capítulo 17 de Apocalipse são: o verbo ver (8x), mulher (8x), assentar (4x), imoralidade sexual (7x), animal/besta (9x), reis (7x), dez (5x), chifres (4x), sete (8x) e cabeça (3x). Como podemos interpretar esses dados?

João enfatiza que o que ele está relatando é uma visão (17:3, 6, 8, 12, 15, 16, 18). Ele vê uma mulher (17:3, 4, 6, 7, 9, 18) caracterizada por imoralidade sexual (17:1, 2 [2x], 4, 5, 15, 16) e pela ação expressa pelo verbo assentar (17:1; 3; 9; 15). Esse verbo é importante em Apocalipse, pois é usado para alguém que se assenta no trono para governar, é um símbolo de governo, como fica claro no capítulo seguinte falando sobre a mesma personagem: “porque diz consigo mesma: Estou sentada como rainha.” (Ap 18.7). Ainda mais frequente do que mulher em Apocalipse 17, a palavra besta mostra o quando essa mulher está intimamente conectada com esse animal fantástico (17:3, 7, 8, 11, 12, 13, 16, 17). Tanto a mulher quando o animal estão intimamente associados com os reis da terra (17:2, 9, 12, 14, 18).

Além de descobrir as palavras mais usadas em Apocalipse 17, fiz uma comparação entre quantas vezes essas palavras aparecem neste capítulo e no resto do livro. Os resultados foram os seguintes:

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Essa comparação carrega consigo diversas possibilidades exegéticas que tem que ser confirmadas na leitura do texto e do livro como um todo. Mais do que em outros momentos, João quis caracterizar esse relato como uma visão profética. Isso aponta para o caráter simbólico do texto. Para a visão fazer sentido, ela tem que ser interpretada como uma figura e não como um relato de algo que vai acontecer literalmente conforme visto por João.

Esse capítulo está de alguma forma conectado com o capítulo 12, cujo personagem central também é uma mulher. Considerando que a mulher do capítulo 12 é apresentada como pura e perseguida pelo dragão, o relacionamento que existe entre os dois capítulos é de antítese. A mulher do capítulo 12 é o oposto da mulher do capítulo 17. Enquanto aquela é perseguida e será salva por Deus, essa será completamente destruída. Assim, se aquela mulher do capítulo 12 representa a igreja (a noiva de Ap 21–22), essa, que é uma prostituta, possivelmente representa o oposto da igreja (falsas religiões, idolatrias humanas). A mulher representada no capítulo 17 é a Babilônia e a do capítulo 12 é a Nova Jerusalém.

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Aqui vemos que o capítulo 17 está ligado intimamente também (pelo conceito animal/besta) ao capítulo 13. Provavelmente os dois capítulos se referem ao mesmo animal, um símbolo possivelmente para um poder político universal que aparecerá no final dos tempos e que, na época de João, era o Império Romano (e que no passado havia sido a Babilônia). Haverá uma submissão massiva dos reis da terra a esse poder político universal.

O texto também mostra a importância das sete cabeças e dos dez chifres. Números tem uma importância simbólica muito grande no Apocalipse, mas eu ainda não analisei esse texto ao ponto de arriscar uma interpretação aqui. Lição central de Apocalipse 17? Ainda que as falsas religiões enganem a muitos e pareçam vitoriosas quanto comparadas ao Cristianismo, um dia o próprio Deus vai destruir toda a falsa religião em seu processo de criar um novo céu e uma nova terra onde habita a justiça.

Na interpretação bíblica, nada substitui a leitura da própria Biblia. Há ferramentas, no entanto, que podem ser muito úteis e certamente as ferramentas visuais do Logos estão entre essas.

Dica Exegética

João Paulo Thomaz de Aquino Visualizar tudo →

Mestre em Antigo Testamento pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper (CPAJ, 2007), mestre em Novo Testamento pelo Calvin Theological Seminary (2009) e doutor em ministério pelo CPAJ (2015), doutorando em Novo Testamento pela Trinity International University. É professor de Novo Testamento no CPAJ e ministro da Igreja Presbiteriana do Brasil. É também editor dos websites http://www.issoegrego.com.br e http://yvaga.wordpress.com.

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